- Então, que é feito? Já há anos que não sabia de ti.
- Cá vou, ando um bocado em baixo, mas isto passa.
- Então, algum problema?
- Não, foi só a minha mulher que resolveu deixar-me.
- Ah bom. Então estás com sorte. Olha, eu cá resolvi casar-me, mas só depois é que vi o emaranhado em que me meti.
- Mas porquê? Ela dá-te cabo da cabeça?
- Não, até é impecável. E a filha dela também.
- O quê? Ela era casada?
- Não. Era viúva. Portanto, a filha é minha enteada.
- Então, é a miuda que é chata?
- Não. Tem trinta anos, é jeitosinha e até é bem simpática.
- Se não é a filha nem a mãe, de que é que te queixas?
- Oh pá, é que o meu pai achou tanta piada à miuda, que resolveu casar-se com ela. Vai daí a minha mulher passou a ser sogra do meu pai, que já era seu sogro.
- Ena, c'a granda embrulhada.
- Ainda tu não viste nada. Com isto tudo, para além de eu ter passado a ser padrasto do meu pai, e a minha enteada a filha da minha mulher, ter passado a ser a minha madrasta, não é que tiveram um filho?
- Tiveram um filho? Então, se é filho do teu pai... quer dizer que é teu irmão.
- Pois é. E tambem é meu neto, porque é filho da filha da minha mulher, ou seja, tambem sou avô do meu irmão.
- Puxa, como é que vocês se tratam?
- Calma, ainda não acabou. A seguir a minha mulher engravidou, e eu tive um filho. Ora, o meu filho é da minha mulher, é irmão da minha sogra e também seu neto, visto ser filho do filho do seu marido.
- Bolas, como é que consegues decorar isso tudo?
- Sei lá. Quase que dava em maluco. Já viste que este último nascimento originou uma confusão completa. O meu pai tornou-se cunhado do meu filho, porque a irmã do meu filho é sua mulher. Eu fiquei irmão do meu próprio filho e filho da minha avó. Sou cunhado da minha madrasta e a minha mulher é tia do seu próprio filho, e este é sobrinho do meu pai. Portanto, não sei se já reparaste mas o que é certo é que tornei-me avô de mim próprio.
26 dezembro, 2008
A confusão do grau de parentescos
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