08 janeiro, 2009

GERIR A RAIVA

Por vezes, quando se tem um mau dia e precisamos de o descarregar em alguém, não o faça em alguém seu conhecido. Descarregue em alguém que NÃO conheça.

Estava sentado à minha secretária, quando me lembrei de um telefonema que tinha de fazer. Encontrei o número e marquei-o. Respondeu um homem que disse: 'Está?'

Educadamente respondi-lhe: 'Estou! Sou o Luís Alves. Posso falar com a Sra. Ana Marques, por favor?'

Ficou com uma voz transtornada e gritou-me aos ouvidos: 'Vê lá se arranjas a merda do número certo, ó filho da puta!' e desligou o telefone.

Nem queria acreditar que alguém pudesse ser tão mal educado por causa de uma coisa destas. Quando consegui ligar à Ana, reparei que tinha acidentalmente transposto os dois últimos dígitos.

Decidi voltar a ligar para o número 'errado' e, quando o mesmo tipo atendeu, gritei-lhe: 'És um grande paneleiro!' e desliguei. Escrevi o número dele juntamente com a palavra 'paneleiro' e guardei-o.

De vez em quando, sempre que tinha umas contas chatas para pagar ou um dia mesmo mau, telefonava-lhe e gritava-lhe: 'És um paneleiro!' Isso animava-me.

Quando surgiu a identificação de chamadas, pensei que o meu terapêutico telefonema do 'paneleiro' iria acabar. Por isso, liguei-lhe e disse: 'Boa tarde. Daqui fala da PT.

Estamos a ligar-lhe para saber se conhece o nosso serviço de identificação de chamadas!'

Ele disse 'NÃO!' e bateu o telefone.

De seguida liguei-lhe, e disse: 'É porque és um grande paneleiro!'

Uma vez, estava no parque do Centro Comercial e, quando me preparava para estacionar num lugar livre, um tipo num BMW cortou-me o caminho e estacionou no lugar que eu tinha estado à espera que vagasse.

Buzinei-lhe e disse-lhe que estava ali primeiro à espera daquele lugar, mas ele ignorou-me.

Reparei que tinha um letreiro 'Vende-se' no vidro de trás do carro, e tomei nota do número de telefone que lá estava.

Uns dias mais tarde, depois de ligar ao primeiro paneleiro, pensei que era melhor telefonar também para o paneleiro do BMW.

Perguntei-lhe: 'É o senhor que tem um BMW preto à venda?'

'Sim', disse ele.

'E onde é que o posso ver?', perguntei.

'Pode vir vê-lo a minha casa, aqui na Rua da Descobertas, Nº 36. É uma casa amarela e o carro está estacionado mesmo à frente.'

'E o senhor chama-se?' perguntei.

'O meu nome é Alberto Palma', disse ele.

'E a que horas está disponível para mostrar o carro?'

'Estou em casa todos os dias depois das cinco.'

'Ouça, Alberto, posso dizer-lhe uma coisa?'

'Diga!'

'És um grande paneleiro!', e desliguei o telefone. Agora, sempre que tinha um problema, tinha dois 'paneleiros' a quem telefonar.

Tive, então, uma ideia. Telefonei ao paneleiro Nº 1.

'Está?'
'És um paneleiro!' (mas não desliguei)

'Ainda estás aí?' ele perguntou.

'Sim', disse-lhe.

'Deixa de me telefonar!' gritou.

'Impede-me', disse eu.

'Quem és tu?' perguntou.

'Chamo-me Alberto Palma', respondi.

'Ah sim? E onde é que moras?'

'Moro na Rua da Descobertas, Nº 36, tenho o meu BM preto mesmo em frente, ó paneleiro. Porquê?

'Vou já aí, Alberto. É melhor começares a rezar', disse ele.

'Estou mesmo cheio de medo de ti, ó paneleiro!' e desliguei.

 A seguir, liguei ao paneleiro Nº 2.

'Está?'
'Olá, paneleiro!', disse eu.

Ele gritou-me: 'Se descubro quem tu és...'

'Fazes o quê?' perguntei-lhe.

'Parto-te a tromba!' disse ele.

E eu disse-lhe: 'Olha, paneleiro, vais ter essa oportunidade. Vou agora aí a tua casa, e já vais ver.'

Desliguei e telefonei à Polícia, dizendo que morava na Rua da Descobertas, Nº 36 e que ia agora para casa matar o meu namorado gay.

Depois liguei para as cadeias de TV e falei-lhes sobre a guerra de gangs que se estava a desenrolar nesse momento na Rua da Descobertas.

Peguei no meu carro e fui para a Rua da Descobertas. Cheguei a tempo de ver os dois parvalhões a matarem-se à pancada em frente de seis viaturas da polícia e uma série de repórteres de TV.

Já me sinto muito melhor.

Gerir a raiva sempre funciona.

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