24 setembro, 2008

Português moderno

A NOVA LÍNGUA PORTUGUESA

Desde que os americanos se lembraram de começar a chamar aos pretos
"afro-americanos", com vista a acabar com as raças por via gramatical
- isto tem sido um fartote pegado!

As criadas dos anos 70 passaram a "empregadas domésticas" e
preparam-se agora para receber menção de "auxiliares de apoio
doméstico".

De igual modo, extinguiram-se nas escolas os "contínuos "passaram
todos a "auxiliares da acção educativa".

Os vendedores de medicamentos, com alguma prosápia, tratam-se por
"delegados de informação médica".

E pelo mesmo processo transmudaram-se os caixeiros-viajantes em
"técnicos de vendas".

O aborto eufemizou-se em "interrupção voluntária da gravidez";

Os gangs étnicos são "grupos de jovens"

Os operários fizeram-se de repente "colaboradores";


As fábricas, essas, vistas de dentro são "unidades produtivas"e
vistas da estranja são "centros de decisão nacionais".

O analfabetismo desapareceu da crosta portuguesa, cedendo o passo à
"iliteracia" galopante.

Desapareceram dos comboios as 1.ª e 2.ª classes, para não ferir a
susceptibilidade social das massas hierarquizadas, mas por
imperscrutáveis necessidades de tesouraria continuam a cobrar-se
preços distintos nas classes "Conforto" e "Turística".

A Ágata, rainha do pimba, cantava chorosa: «Sou mãe solteira...» ;
agora, se quiser acompanhar os novos tempos, deve alterar a letra da
pungente melodia: «Tenho uma família monoparental...» - eis o novo
verso da cançoneta, se quiser fazer jus à modernidade impante.

Aquietadas pela televisão, já se não vêem por aí aos pinotes crianças
irrequietas e «terroristas»; diz-se modernamente que têm um
"comportamento disfuncional hiperactivo"

Do mesmo modo, e para felicidade dos "encarregados de educação" , os
brilhantes programas escolares extinguiram os alunos cábulas; tais
estudantes serão, quando muito, "crianças de desenvolvimento
instável".

Ainda há cegos, infelizmente. Mas como a palavra fosse considerada
desagradável e até aviltante, quem não vê é considerado "invisual".
(O termo é gramaticalmente impróprio, como impróprio seria chamar
inauditivos aos surdos - mas o "politicamente correcto" marimba-se
para as regras gramaticais...)


As putas passaram a ser "senhoras de alterne".

Para compor o ramalhete e se darem ares, as gentes cultas da praça
desbocam-se em "implementações", "posturas pró-activas", "políticas
fracturantes" e outros barbarismos da linguagem.

E assim linguajamos o Português, vagueando perdidos entre a «correcção
política» e o novo-riquismo linguístico.

Estamos lixados com este "novo português"; não admira que o pessoal
tenha cada vez mais esgotamentos e stress. Já não se diz o que se
pensa, tem de se pensar o que se diz de forma "politicamente
correcta".

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