15 outubro, 2008

Há momentos em que a pena, hoje esferográfica, consegue descrever o que sentimos. Este terá sido um deles.

«Já fiz cócegas à minha irmã só para que deixasse de chorar, ja me queimei a
brincar com uma vela, ja fiz um balão com a pastilha que se me colou na cara
toda, ja falei com o espelho, ja fingi ser bruxo.

Já quis ser astronauta, violinista, mago, caçador e trapezista; ja me
escondi atras da cortina e deixei esquecidos os pés de fora; ja estive sob o
chuveiro até fazer chichi.

Já roubei um beijo, confundi os sentimentos, tomei um caminho errado e ainda
sigo caminhando pelo desconhecido.

Já raspei o fundo da panela onde se cozinhou o creme, ja me cortei ao
barbear-me muito apressado e chorei ao escutar determinada música no
autocarro.

Já tentei esquecer algumas pessoas e descobri que são as mais difíceis de
esquecer.

Ja subi às escondidas até ao terraço para agarrar estrelas, ja subi a uma
arvore para roubar fruta, ja caí por uma escada.

Já fiz juramentos eternos, escrevi no muro da escola e chorei sozinho na
casa de banho por algo que me aconteceu; ja fugi de minha casa para sempre e
voltei no instante seguinte.

Já corri para não deixar alguém a chorar, ja fiquei só no meio de mil
pessoas sentindo a falta de uma única.

Já vi o pôr-do-sol mudar do rosado ao alaranjado, ja mergulhei na piscina e
não quis sair mais, ja tomei whisky até sentir meus lábios dormentes, ja
olhei a cidade de cima e nem mesmo assim encontrei o meu lugar.

Já senti medo da escuridão, ja tremi de nervos, ja quase morri de amor e
renasci novamente para ver o sorriso de alguém especial, ja acordei no meio
da noite e senti medo de me levantar.

Já apostei a correr descalço pela rua, gritei de felicidade, roubei rosas
num enorme jardim, ja me apaixonei e pensei que era para sempre, mas era um
'para sempre' pela metade.

Já me deitei na relva até de madrugada e vi o sol substituir a lua; já
chorei por ver amigos partir e depois descobri que chegaram outros novos e
que a vida é um ir e vir permanente.

Foram tantas as coisas que fiz, tantos os momentos fotografados pela lente
da emoção e guardados nesse baú chamado coração...

Agora, um questionario pergunta-me, grita-me desde o papel: ' - Qual é a sua
experiência?'

Essa pergunta fez eco no meu cérebro. 'Experiência.... Experiência... ' Será
que cultivar sorrisos é experiência?

Agora... agradar-me-ia perguntar a quem redigiu o questionario: ' -
Experiência?! Quem a tem, se a cada momento tudo se renova???

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